O presépio de Francisco

O tempo ordinário da Igreja se esvai, daqui a um tempo e mais outro tempo, tudo roxo ficará, dando lugar ao doce grito de “Isaías... Isaías, anuncia o messias!”

Frei Antonio Júnior OFMConv.

Mais uma vez se aproxima o tempo de, com voz vibrante e audaz palavreado, juntos asseverarmos “Cristo nasceu!”. O tempo ordinário da Igreja se esvai, daqui a um tempo e mais outro tempo, tudo roxo ficará, dando lugar ao doce grito de “Isaías... Isaías, anuncia o messias!”. Às vésperas de um tempo tão oneroso como este, Francisco sensibilizou-se. Desejou tocar o mistério. Por incrível que pareça, não gritou, eis a verdade, irmãos: silenciou e ajoelhado, todo reclinado, adorou. Diante deste estranho mover, eu pergunto:

- Onde estava, nos caminhos, a alegria vivaz e ruidosa de Francisco? Do homem que chorava pelo amor não ser amado...

Francisco era o homem da ruminação... para ele o evangelho era algo como seiva, sem a qual não passava um só instante. Esse ato ruminativo, o levava a outro grande predicado seu: a escuta. Ele escutava o Evangelho em todos os lugares, a partir de todas as coisas, seja ele em seu vigor ou em sua decadência.

Eis a verdade, irmãos: por mais ofuscante que fosse o modo de vida acolhido por Francisco, ele resguardava algo extremamente valioso: era um homem totalmente reverente ao grande mistério da encarnação do Senhor. É evidente, disto o acusamos: Arquitetou a construção do presépio, envolveu os moradores de Gréccio, convocou os frades, atraiu homens e mulheres ao lugar certo na hora exata.

E no ambiente mais bucólico, na noite mais estrelada, com o boi e o burro ao lado, colocou-se em total reverência para ver a humildade do menino... O menino que deveras andava esquecido, amontoado em tantos tecidos brocados...

E hoje, por onde anda o menino? O que fizemos dele? Ah! Acho que lembrei: está... está nos gritos, nas compras, nos presentes, nas luzes, nas lojas... está amontoado novamente, tão enfronhado a ponto de não ser notado, mesmo no dia mais iluminado, da noite mais estrelada, no qual soa o sino que tem o som mais limpo a retinir em nossos ouvidos cerrados.

Muito embora, vejamos: o embotamento do menino pode realmente nos impossibilitar de vê-lo? Eu poderia audazmente responder em um simples e direto “sim”. Mas, eis a verdade:

- Eu acredito na força do Evangelho, e mais que isso:

- Sou de uma esperança inatual e voraz, digno de um herdeiro das fileiras minoríticas. Tenho visto, neste vasto mundo de meu Deus, nas tantas andanças missionárias, exemplos inegáveis da encarnação deste humilde Menino. Pois bem: vi viúvas sendo amparadas, órfãos sendo recolhidos, idosos sendo valorizados, jovens recebendo oportunidades. Eu, contra-argumento com uma Helena, uma Dolores, um Robson, uma Sebastiana. A olho nu, são apenas anônimos. Podes acreditar, irmão: eles verão o menino nascer e já começaram a se preparar. Já arquitetaram a feitura do presépio.

A angustiante, mas a simples verdade é a seguinte: qualquer cristão, quando se reclina à reverência do mistério, é imerso em estado de graça, é qualquer coisa de excepcional em matéria de fé, de piedade, de devoção.  Em suma:

- Temos, todos e cada um de nós, a capacidade, a mesma de Francisco, em receber, e da melhor forma possível, a vinda do Menino de Belém. Mas algo nos impede. Quero trazer à baila ao que eu poderia intitular de “complexo de superioridade criacional”. Fico, aqui do meu lugar, a cogitar o espanto do leitor, “o que seria essa coisa complicada?”. Não se avexe, vou explicar.

Por “complexo de superioridade criacional” eu entendo a capacidade de o ser humano, mesmo nós franciscanos com a bagagem histórica a qual carregamos, se colocar acima de todas as outras criaturas, como um dominador. Verdadeiramente, este não era o ocular de Francisco. Este que se pôs exatamente no mesmo lugar no qual os animais comeram o feno, para lá, neste exato lugar, comer o pão da vida. Ali, no presépio, os animais comiam aquilo que lhes traria a vida biológica, Francisco se alimentava do alimento eterno. Ali, em meio ao feno, que para os complexados é indigno, nasceu Deus. Deus menino. São Deus Menino. O doce Menino de Belém.

Eu vos digo: o problema em não percebermos a vinda do Menino de Belém, não está nas lojas, nas lâmpadas, nas músicas. Absolutamente. É um problema de nós para conosco mesmo.

Os cristãos precisam se convencer de que são capazes de Deus. Uma vez convencidos disso, teremos condições plenas de arquitetar o santo presépio e nos alimentarmos junto ao burro e ao boi, tendo em vista o nosso alimento eterno e salutar. Não nos sentiremos maiores ou menores, mas sim, apenas amados pelo Amor que ardentemente deseja ser amado.

 

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